Conheci a Marta um dia pela manhã, bem de manhãzinha indo pro trabalho. Ela estava sempre acompanhada de uma moça que fazia os serviços da copa na escola em que eu trabalho. Marta é uma mulher grande, da pele alva cabelos longos sorriso largo e muito expansiva. Sempre nos cumprimentávamos mas nunca havíamos parado para falar nada além do mesmo bom dia de sempre. Ela era uma parte do meu caminho. Religiosamente nos encontrávamos no mesmo lugar em direção oposta e isso para mim era sinal de que eu ainda estava dentro do meu horário. Até que um dia fiquei sem Ana, e sem alguém que me ajudasse em casa, procurei por Marta, eu sabia que ela trabalhava em casa de família. A ironia era que justo agora não a encontrava. Duas semanas se passaram quando finalmente a vi.
_Foi Rejane , ela disse. Tive de cuidar dela.
Tudo certo no sábado seguinte ela estava pronta em minha cozinha. Bem arrumada elegante em sua dignidade. Foi à dispensa, trocou suas roupas e me perguntou :
_Estou a disposição de vocês. Por onde eu começo?
Faz um ano todo sábado é a mesma coisa, pontual às 8:00 , ela esta a postos! Nunca se atrasou. Os problemas por não saber ler sempre foram driblados com aquela manha de brasileiro. São 46 anos, uma filha de 16. Ela trabalha durante a semana em uma casa de família e aos sábados está aqui. De pé e inteira. Arruma a casa, passa a roupa e vai embora com o mesmo sorriso que chegou. Sempre me impressionou sua alegria forte. Faz um ano e nunca mudou. Ela só tem medo de relâmpago! Coisa de quando era pequena, ela mesmo disse!
Mais ou menos um mês atrás, Rejane ,uma de suas irmãs caiu doente.
_O câncer voltou.
Muito poucas chances mas estavam todos juntos. O pai a mãe os irmãos e Marta! Foi um calvário por que nem podíamos tentar alertá-la, ela não parava para ouvir. Não deixou de vir nem um sábado. Nem quando a entreguei sua diária e pedi que ela voltasse. Ela conta conosco pra seu sustento. O que ela não imagina é que também contamos com ela, pra muito mais do que a casa, casa que aos sábados tem a cara de Marta. Nossa roupa já esperou, vou ter que passar tudo, como eu acho que sei. Agora a pouco ela me ligou, eu estava meio longe com minhas questões seculares.
_Rejane morreu...
Ela estava no trem rumo a Rio Grande da Serra. São duas horas até lá. Acho que ela estava chorando. Não ouvi muito bem, não falamos mais nada.
Chorei por Marta e agora estou escrevendo. Minha roupa vai esperar. Vou ter que passar tudo, como eu acho que sei. Eu também terei que esperar. Acho que finalmente amanhã ela não vem.
Para Rejane
sexta-feira, 29 de maio de 2009
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